Entrecruzamentos

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Até aqui nos detivemos em descrever como a Gestalt-Terapia entende as relações humanas, como estas têm aparecido em nossa prática clínica e a situação contemporânea de onde emergem. Se somos, como dizia Merleau-Ponty (1964/2000), a carne do mundo, se comungamos de um fundo comum, de uma generalidade, de uma cultura que nos atravessa a todos, podemos inferir que não é à toa que muitos estamos adoecidos. Compartilhamos de uma teia também adoecida, de um fundo que não é favorável à experiência de alteridade, ao encontro, à intimidade, à singularidade, à criação de novos possíveis.

Vimos, em nossa clínica, que as pessoas têm tido cada vez mais dificuldade em lidar com o momento do conflito e da entrega. Como dissemos no início deste artigo, a dificuldade do conflito é uma dificuldade do embate, da agressão; e a da entrega diz respeito a abrir mão de uma atividade, de se lançar na experiência de união e dissolução das fronteiras. Em última instância, ambas remetem a uma dicotomização dos polos atividade e passividade, ora uma valorização da atividade em detrimento da passividade ora uma sujeição passiva. Esta última, no entanto, parece bemvinda quando a serviço de uma docilização, quando incentiva formas acríticas e introjetoras de existir no mundo.

Dessa forma, podemos estar em uma atividade mecânica, guiada pela pressa, que reflete uma lógica de produtividade e um medo de parar e encarar a ansiedade da incerteza frente ao desconhecido e/ou podemos estar também num modo de ser passivo, engolindo pronto aquilo que vem de fora. Em ambos os casos alienados e acríticos, o que permeia esses dois modos de estar no mundo é uma alienação tanto pela atividade quanto pela passividade.

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